Deflação de 0,09% em agosto é sinal de fraqueza do consumo das famílias, de perda da renda dos assalariados e de pessoas no mercado informal de trabalho, e de normalização do abastecimento

A recuperação lenta do emprego no horizonte dos próximos seis meses deve intensificar a falta ou reajustes menores nos salários dos trabalhadores brasileiros, afetando consecutivamente a renda, o consumo das famílias e a atividade produtiva.

Na avaliação do economista e pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da Fundação Getulio Vargas (FGV), André Braz, como o desemprego está elevado e a atividade econômica fraca, o poder de negociação dos trabalhadores diminui.

“Os dissídios tendem a perder da inflação. O trabalhador perde seu poder de barganha [junto aos empregadores] e aceita reajustes menores para preservar o emprego”, argumenta.

De acordo com dados divulgados na última sexta-feira pelo Ibre/FGV, o Indicador Antecedente de Emprego (IAEmp) caiu 0,4 ponto em agosto, para 94,3 pontos, menor nível desde dezembro de 2016 (90 pontos). Em 2016, o País registrou queda de 3,6% do Produto Interno Bruto (PIB), após uma baixa de 3,8% do PIB em 2015, portanto estava no auge da maior recessão da história brasileira desde a Grande Depressão do século 20 (1929-1930).

Para o economista e pesquisador de economia aplicada do Ibre/FGV, Fernando de Holanda Barbosa Filho, a queda no indicador antecedente de desemprego reflete o fraco crescimento econômico em 2018. “O baixo crescimento deste ano aliado à elevada incerteza acerca do processo eleitoral e ao desempenho econômico de 2019 contribuem para as expectativas não muito otimistas acerca da contratação futura”, afirmou o pesquisador.

Na visão dele, aquela expectativa do início de 2018 de uma melhora econômica mais rápida foi abandonada. “A recuperação lenta vai tirar menos gente da desocupação. O mercado de trabalhado vai continuar muito duro”, diz Filho.

Em agosto, o Indicador Coincidente de Desemprego (ICD) subiu 0,2 ponto, para 96,3 pontos, após recuar 1 ponto em julho. O ICD é um índice com sinal semelhante ao da taxa de desemprego, ou seja, quanto menor o número, melhor o resultado. Vale lembrar que, em julho, pelos dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil registrava 12,9 milhões de desempregados, taxa de desocupação de 12,3%.

Para o coordenador de cursos da Faculdade Fipecafi, Valdir Domeneghetti, o desemprego alto e a fraqueza nas expectativas de emprego provocam impactos negativos sobre a renda e o consumo. “A deflação não é boa em nenhuma situação. O mercado doméstico não está absorvendo a oferta e os preços estão caindo”, observa o professor.

De fato, na última sexta-feira, o IBGE divulgou deflação de 0,09% em agosto, abaixo do esperado por analistas. E o Índice de Preços ao Consumidor para famílias de baixa renda acompanhado pela FGV também apareceu com variação positiva de apenas 0,04%.

“Toda aquela forte pressão dos preços causada pela greve dos caminhoneiros na inflação de junho e julho foi dissipada no mês de agosto”, explicou André Braz. “A atividade econômica fraca freia a renda e o consumo. Se a economia estivesse aquecida, talvez não tivesse deflação”, completou.

O economista do Banco MUFG Brasil, Mauricio Nakahodo, também notou que o subgrupo alimentação fora do domicílio teve deflação de 0,72% no mês passado, sinal de normalização da oferta de alimentos após os meses de maio, junho e julho. O grupo alimentos e bebidas como um todo teve queda média de 0,34%, baixa pelo segundo mês consecutivo. “Nós esperamos um IPCA de zero e veio abaixo”, destacou Nakahodo.

Pelo detalhe dos dados do IBGE, recuaram os preços da cebola (-22,19%), batata inglesa (-11,89%), tomate (-4,84%), farinha de mandioca (-4,56%), hortaliças (-4,07%) e também frango (-1,65%) e carnes (-1,52%). “A carne brasileira de frango e bovina sofre com restrições no mercado internacional”, lembra Domeneghetti.

Na opinião dos especialistas, pelo menos, a inflação controlada para o ano de 2018 é um alento. “Para quem está trabalhando [91,7 milhões de pessoas], essa inflação baixa preserva um pouco da renda”, comentou André Braz.

Ele completa, no entanto, que o cenário eleitoral gera muita incerteza sobre a retomada da economia. “Até que haja um governo comprometido com reformas fiscais”, diz. Domeneguetti fala que não falta liquidez para investimentos. “Falta confiança. O cenário eleitoral é de cinema”, afirma.

Taxa Selic estável
Na projeção de André Braz, da FGV, e do economista do Banco MUFG, a inflação de setembro ficará em torno de 0,30%. No atual mês estão esperados efeitos indiretos do reajuste do diesel (13%) e da tabela dos fretes (5%), e do repasse da gasolina a cada 15 dias na inflação dos consumidores.

“A alta do dólar não afeta só a viagem de quem vai para a Disney, mas também do pão francês, massas, óleos vegetais, carnes, gasolina e do diesel”, responde Braz. “O aumento do câmbio terá um impacto bastante moderado à inflação. A demanda está relativamente fraca. O BC deve manter os juros [Selic em 6,5%] até o final do ano”, projeta Nakahodo.

Em outras palavras, apesar do discurso recente do BC de transmissão do aumento do dólar para uma parte dos preços num horizonte de 12 a 18 meses, os economistas, no momento, não consideram a necessidade de alta da Selic.
Fonte: DCI