23/09/2017– 04h00min

Mais otimista com o cenário econômico do país, o economista José Roberto Mendonça de Barros, ex-Secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda e consultor da MB Associados foi o palestrante da reunião da diretoria da Federação das Indústrias do Estado (Fiesc), nesta sexta, no novo Instituto da Indústria, em Joinville.

Mendonça disse que nunca viu os astros tão bem alinhados para favorecer uma recuperação do consumo no país como agora. Ele prevê alta do PIB de até 1% este ano e de 3% ano que vem. Leia os principais trechos da entrevista.

Há um otimismo maior sobre o crescimento do PIB do Brasil este ano. Qual é a projeção de vocês, da MB Associados?

Nós estamos prevendo uma recuperação robusta da economia. Algo entre 0,8% e 1% de crescimento do PIB para este ano e de 3% para o ano que vem, com viés de alta. É uma recuperação de verdade. O que começou essa recuperação foi a agricultura, que teve um desempenho notável no início do ano, e o setor automotivo que começou a se recuperar. Os dois segmentos avançaram não só no mercado interno, mas nas exportações. Estamos caminhando para exportar 700 mil veículos este ano, que é mais do que o dobro do ano passado. As vendas domésticas também estão crescendo. Olhando para trás, o início da recuperação teve agricultura, veículos, mercado interno e especialmente exportações. Agora, o que vai puxar o crescimento é o consumo interno. Como o consumo interno responde por mais de 60% do PIB, se começar a crescer com certa sustentação, o PIB vai crescer.

Por que o consumo vai crescer? 

Eu nunca vi os astros tão bem alinhados para favorecer uma recuperação do consumo. São seis ou sete coisas. Primeiro: com a safra agrícola grande, o custo de alimentação caiu muito. Há um ano atrás ele crescia 14% ao ano, agora está caindo 2% ao ano. Significa que para as classes C, D e E sobra mais poder de compra além do supermercado. E os preços continuam caindo. Segundo: outros preços continuam caindo e a inflação como um todo vai ser muito mais baixa do que projetavam. Na MB, estamos projetando 2,9% de alta do IPCA (inflação oficial) para este ano e 3,9% no ano que vem. Isso repõe o poder de compra dos salários. Um mecanismo diferente, não é o salário que está subindo, mas o custo de vida que está caindo. Resultado disso, o salário compra mais. Os dados da Pnad contínua mostram que se eu pegar todos os rendimentos e descontar a inflação nos últimos 12 meses até julho, o rendimento está crescendo 3% em termos reais. É mais ou menos o que vai dar este ano. As famílias terão crescimento real de renda de 3%. É algo inusitado. Há muito tempo não acontece. Normalmente ocorre quando o mercado está aquecido e há aumento de salário, o que não é o caso atual.

Quais são os outros pontos?

O quarto ponto é que as famílias fizeram sacrifícios, reduziram o consumo, por isso o endividamento delas caiu. A dívida total das famílias do país recuou de 46% para 41,5%. Menos endividadas, podem voltar a consumir. A conseqüência disso, é que a inadimplência das famílias também caiu muito. São dados do Banco central. Como inadimplência menor, os bancos e financeiras estão dispostos a dar crédito ao consumidor de novo. Temos mais dois fatores. A taxa de desemprego caiu, embora esteja alta ainda. Uma boa parte vem do trabalho informal, mas o fato é de que de março a junho, 1,4 milhão de pessoas que estavam sem rendimento passaram a ter rendimento. Isso é muito significativo. E a última coisa, a cereja, é o juro. Já caiu e vai cair mais. O Banco Central informou que vai reduzir a Selic para 7% em dezembro e nós achamos que no ano que vem talvez vá para  6,5% ao ano. Isso vai melhorar o crédito ao consumidor. E outra coisa. O consumidor não faz conta pelo tamanho do juro, mas olha se pode pagar a prestação ou não.

O setor de serviços segue fraco em SC. Quando o senhor fala em maior consumo, considera melhoria dos serviços? 

Sim, considero o consumo de bens e serviços. A compra de bens duráveis depende de crédito, o consumo de serviços, na maioria das vezes, depende de renda. Vai influenciar sim. Aliás, uma parte da redução recente do desemprego está na área de serviços, embora seja espalhada em todos os segmentos. Como há um desemprego grande concentrado em serviços, o setor demora mais para sair da crise. Essa recuperação vai fazer cair a taxa de desemprego, mas ela está ainda muito alta, um pouco abaixo de 13%. A notícia importante é que já está melhorando e vai se acentuar ao longo do ano que vem.

Nós já saímos da recessão? Vamos ter um crescimento acentuado?

Tecnicamente, saímos da recessão. Para isso ocorrer, são necessários dois trimestres de crescimento do PIB. No segundo trimestre saímos, mas com alta muito moderada, de 0,2%. No terceiro trimestre isso será consolidado porque teremos um crescimento mais significativo frente ao segundo trimestre, E no ultimo trimestre será uma alta robusta, superior a 1%. Vários números mostram recuperação no terceiro trimestre.

Como vê o cenário econômico futuro?

Precisamos enfrentar três pautas. A primeira é que tem que melhorar as contas do governo. Temos que fazer alguma reforma da Previdência até o ano que vem. Não é fácil. A segunda pauta é aumentar o investimento. A taxa está muito baixa e a recessão se caracteriza pela falta de investimento. O aumento do investimento quando a indústria está com muita capacidade ociosa só pode acontecer pela infraestrutura. E como o governo não tem dinheiro, é preciso fazer via concessões e privatizações. É preciso aumentar programa com esse objetivo. Falo em investimentos nos setores de petróleo, energia elétrica, estradas, portos, aeroportos e saneamento. E a terceira pauta, que é a mais complicada de todas é a eleição. Está garantido que haverá uma recuperação importante este ano e o nano que vem, o que é muito bom, mas não está garantido, que em 2019 e 2020 vamos continuar a crescer se não avançarmos nessas três pautas.

Quais pautas podem avançar?

Eu acho que vamos avançar na pauta fiscal. Há um convencimento universal. Mesmo no congresso de má qualidade que temos, todos sabem que se não mexer um pouco na Previdência seu déficit vai tragar todo mundo. E que também não dá para continuar pagando supersalários para uma elite de funcionários públicos porque é inconsistente com o tamanho do Brasil. E isso vai ser ajudado pela própria retomada. Em agosto, a arrecadação pública cresceu 8% real porque houve avanço de produtividade. As contas públicas vão melhorar um pouquinho em função da retomada e porque o juro está caindo. O governo é o grande devedor, a conta de juros vai reduzir. Na concessão à privatização, tem coisas que já avançamos, como em petróleo e energia. O que está mais complicado é a logística, justamente na área em que há mais atraso no país.

E a eleição do ano que vem?

A incerteza é maior, embora esteja longe ainda. Está difícil avaliar quem vai ser candidato. Eu acho que o embate na eleição será entre reformistas e populistas. Se nós elegermos alguém minimamente convencido de que  precisamos fazer reformas, acho que consolida bem a retomada, com seis a sete anos de crescimento. Se vier um populista, vamos ter mais dificuldades.

Para gerar mais empregos, qual é o perfil melhor?

Eu acho que é o reformista, que é o que sustenta crescimento, com mais empregos e avanços em produtividade. O populista vende ilusão. Olha o Lula, todo o projeto de quem esteve no poder há treze anos e entregou um desastre, a pior crise da história do Brasil. Se tivermos crescimento no ano que vem, o ambiente econômico estará melhor e reduz o espaço de promessas ocas de populistas que prometem colocar as pessoas no céu sem esforço.

Fonte: DC