Norte, Centro-Oeste e Sul devem liderar avanço do PIB

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O ano de 2020 deve ser de crescimento para todas as regiões do país, com destaque para Norte, Centro-Oeste e Sul, que tendem a registrar avanços da atividade acima da média nacional, projetam os economistas. O Nordeste seguirá como a região mais atrasada no processo de recuperação, enquanto o Sudeste é afetado pela situação fiscal de Minas e Rio, mas deve ter a indústria extrativa como destaque, seja na mineração, seja em petróleo e gás.

“Centro-Oeste e Sul são regiões com peso maior do agronegócio, naturalmente beneficiadas pelas boas safras de grãos e elevada produção de proteínas”, afirma Fabiana D’Atri, economista do Bradesco. “O Sul conta ainda com um parque industrial com dinâmica positiva nesse momento, principalmente máquinas e equipamentos em Santa Catarina e, no Rio Grande do Sul e Paraná, polos mais ligados à cadeia automotiva.”

Fernando Honorato, economista-chefe do Bradesco, avalia ainda que as regiões serão beneficiadas pelo câmbio desvalorizado e pela alta de preços de carnes em decorrência da peste suína na China. “Isso vai gerar renda para frigoríficos ali, o que acaba se espalhando para o restante da economia”, afirma.

O banco projeta crescimento de 1,6% para o Produto Interno Bruto (PIB) da região Sul em 2019, acelerando a 2,9% em 2020. Para o Centro-Oeste, as estimativas são de 2% e 2,8%, respectivamente. Para o país como um todo, o Bradesco projeta avanços de 1,2% e 2,5% da atividade ano passado e neste ano.

O Norte também deve ser destaque em 2020, com crescimento de 2,7%, na estimativa do Bradesco, e de 2,8%, pela projeção da Tendências Consultoria. “O crescimento mais forte do Norte em 2020 se deve principalmente ao bom desempenho da indústria extrativa, que ano passado foi um pouco contaminado por eventos climáticos no começo do ano”, diz Camila Saito, da Tendências, referindo-se às fortes chuvas no Maranhão, que afetaram o escoamento da produção da Vale no Pará entre março e abril de 2019.

Ainda no Norte, a produção de bens duráveis na Zona Franca de Manaus deve ajudar a impulsionar a atividade, avalia Fabiana, do Bradesco, num ano em que o consumo baseado em crédito promete ser destaque, graças à perspectiva de manutenção da taxa de juros em nível baixo durante todo 2020. Além disso, o agronegócio também influencia no desempenho de alguns Estados da região.

No Sudeste, dois setores devem ter bom desempenho em 2020: a indústria extrativa e a de construção civil. Pelas projeções do Bradesco, o crescimento da região deve mais do que dobrar no próximo ano, passando de 1,1% em 2019 para 2,4% em 2020 – ainda, no entanto, ligeiramente abaixo da média nacional. Já a Tendências espera que o PIB do Sudeste acelere de um crescimento de 1,1% este ano, para 2,2% no próximo, comparado a avanço de 1,2% e 2,1% da economia brasileira.

Com situação fiscal difícil, Minas Gerais deverá ser beneficiada pela retomada de unidades produtivas da Vale, cuja produção foi interrompida após o rompimento da barragem da empresa em Brumadinho. Já o Rio de Janeiro, em estado de calamidade financeira desde 2017, terá como alívio o bom desempenho esperado para o setor de óleo e gás.

Em São Paulo, o setor imobiliário teve bom resultado em 2019, tendência que deve se manter no próximo ano. A Tendências projeta alta de 2,3% para o PIB da construção em 2019 e de 4,2% para 2020. “A indústria de construção demorou para mostrar retomada, mas ela já começou recuperação mais forte no Sudeste e deve tomar fôlego em 2020 e 2021, por causa do crédito e taxa de juros mais baixa”, diz Camila.

Já o Nordeste continua amargando a lanterna da retomada. Segundo cálculo da Tendências, enquanto o Centro-Oeste recuperou o nível de atividade anterior à crise em 2018, graças à boa safra daquele ano e do anterior, Norte e Sul devem ter voltado ao patamar de 2014 no ano passado. Já o Sudeste retoma somente em 2021, enquanto o Nordeste ainda estará aquém do período pré-recessão naquele ano, quando terão se passado sete anos do início da crise.

“O Nordeste vem passando por um período de ressaca”, diz Camila, que projeta crescimento de 0,3% para a região em 2019 e 1,8% neste ano. “A região vem de uma fase de grandes investimentos e transferências governamentais que estimularam muito o consumo. Com a crise, isso foi interrompido e a região sofreu mais.”

Fabiana, do Bradesco, destaca ainda o atraso na recuperação da construção civil no Nordeste, devido aos estoques elevados, e o avanço do desemprego em uma região de desocupação estruturalmente mais alta e fortemente dependente da dinâmica da renda, devido à menor diversidade industrial. No terceiro trimestre do ano passado, enquanto a taxa de desemprego era de 11,8% no país, ela ainda estava em 14,4% no Nordeste.

Otimista, Honorato destaca que, justamente por esse atraso na recuperação, a região é a que tem maior potencial de melhora nos próximos anos. “Se a economia ganhar tração e consumo e investimento acelerarem, as notícias para 2021 e 2022 em relação ao Nordeste serão mais prósperas. Quando você está abaixo da média, numa retomada mais forte, você tende a crescer acima da média. Isso pode acontecer, ainda que não em 2020”, diz.

O Bradesco projeta uma alta de 3% para o PIB brasileiro em 2021, com redução das disparidades regionais. Já a Tendências espera uma aceleração da atividade, para alta de 2,6%. “Para 2021, esperamos uma continuidade do processo de retomada em setores prócíclicos como construção civil e máquinas e equipamentos”, diz Camila, prevendo ainda a continuidade do desempenho positivo do consumo das famílias, com maior geração de empregos formais.
Fonte: Valor Econômico