Mercado para poucos. Mesmo com alto nível de exigências legais para entrar no setor, ramo deve ganhar grandes operadores logísticos e um maior volume de investimentos nos próximos anos

Com um cenário ainda de retomada para muitos setores da economia, o mercado logístico vislumbra no setor de saúde uma grande oportunidade para crescer. Apesar das barreiras de entrada neste ramo, a tendência para o futuro é de aumento de investimentos e novos players na área.

“É um bom mercado. Acho que se há grandes [empresas do setor] que não atuam, certamente devem estar avaliando a possibilidade”, afirma a sócia-executiva do Instituto de Logística e Supply Chain (Ilos), Maria Fernanda Hijjar.

De acordo com ela, durante a crise econômica o setor apresentou uma maior resiliência se comparado aos outros segmentos atendidos pelas empresas de transporte, o que ajudou a atrair um maior número de players. “[Durante a crise] fizemos muitas análises para a entrada ou a expansão das operações [dos operadores] neste setor”, coloca.

Dados da Associação Brasileira de Redes de Farmácias e Drogarias (Abrafarma), apontam que as filiadas movimentaram R$ 44,41 bilhões em 2017, alta de 8,96% sobre 2016. Um desempenho acima do resto do varejo. “O mercado tem um potencial orgânico grande que faz com que não dependa da economia para crescer. Ele sofre influencia, por exemplo, do envelhecimento da população.”

Vendo este potencial, a operadora logística Panalpina Brasil anunciou uma expansão no setor de saúde. A companhia quer levar sua forte participação no transporte internacional para o mercado doméstico. Para isso, anunciou uma solução porta a porta para o mercado nacional e um novo armazém, exclusivo para atender o setor, que deve receber aporte de cerca de R$ 10 milhões. O espaço localizado em Cajamar, na Grande São Paulo, terá mais de 4 mil metros quadrados (m²) de área total e tem licença para operar cosméticos, medicamentos, correlatos e saneantes.

O aporte faz parte do chamado Healthcare Projects, que oferece um portfólio de produtos e serviços para o setor, e vai desde a armazenagem até a logística nacional e internacional, incluindo a certificação GDP. “Dentro do segmento, a projeção é de crescimento de 30% em receita para o ano”, disse ao DCI o diretor de marketing e vendas da empresa, Marcus Harwardt, apostando que o setor se destacará dentro da companhia, e já projeta uma alta de 8%.

Além de novos clientes, ele afirma que grande parte do crescimento pode vir da carteira de clientes que é atendida no serviço internacional.

O presidente executivo da Associação Brasileira de Operadores Logísticos (Abol), Cesar Meireles, aponta que além da terceirização, a busca por empresas que ofereçam um atendimento mais completo em todas as fases da cadeia é uma grande tendência. “O operador é um one stop shop que consolida o serviço e atende com mais eficiência”, coloca.

De acordo com ele, 95% do transporte já é terceirizado, mas no caso da armazenagem e da gestão de estoque, a participação da terceirização cai para 28% e 15%, respectivamente. “Isso é um potencial fantástico pela frente.”

Além disso, Maria Fernanda, do Ilos, acrescenta que há potencial de crescimento entre outros players do mercado como redes de farmácias, que fazem a entrega a suas lojas e os distribuidores, onde a terceirização logística é de 27% e 78%, respectivamente.

A Ativa Logística também está mirando na expansão de sua operação farmacêutica com investimento previsto de R$ 30 milhões até 2019, que incluem contratação de mão de obra e aumento de frota. “O mercado de saúde precisa uma boa infraestrutura e quanto melhor preparados estivermos melhor será a participação de mercado”, diz o presidente da Ativa, Clóvis Gil.

Além do potencial do setor de saúde, o executivo destaca que o mercado de medicamentos genéricos, onde a companhia é líder, tende a ter um grande crescimento nos próximos anos. “Há países em que a participação do genérico chega a 70% das vendas, enquanto no Brasil não ultrapassamos 30%. Ainda dá para dobrar”, ressalta.

Este foco foi um dos motivos do crescimento da companhia em 2017. “Com a crise, muitos médicos passaram a prescrever mais medicamentos genéricos que os de marca”, conta. Para este ano, a expectativa da Ativa Logística é de atingir um faturamento de R$ 292 milhões.

Entre os planos para 2018 estão atingir Goiânia (GO) e Brasília (DF), além de expandir a participação de seus serviços de logística – que hoje representam 20% da receita da companhia, contra o transporte que é 80%. “O ideal é que fique meio a meio.”

Uma tendência mencionada por ele que deve impulsionar o mercado são os movimentos de fusão e aquisição entre as farmacêuticas. “Se isso ocorrer entre um dos nossos clientes, por exemplo, é uma oportunidade de expandir um mesmo contrato.”

Segundo a especialista do Ilos, hoje uma discussão que se consolidada e pode virar uma oportunidade para os operadores é o papel do distribuidor. Dados do Ilos apontam que 34% dos laboratórios gostariam de aumentar a venda direta, o que diminuiria a participação dos intermediários como os distribuidores. “Isso ainda é uma discussão controversa entre os laboratórios e exigiria uma grande organização comercial da indústria para chegar às farmácias. Mas são questionamentos que podem mudar a dinâmica do mercado. Se de fato for retirado o intermediário, o papel do operador logístico ganhará mais importância”, antecipa.