Após quatro anos do início da pior crise do Rio de Janeiro, a economia do estado continua com dificuldades para reagir. A Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan) divulgou com exclusividade suas projeções para o avanço da economia do Rio neste ano, que foram revisadas para baixo. É esperado um crescimento do PIB (Produto Interno Bruto, soma das riquezas) de 0,8% em 2019, ante 1,6% previsto no início do ano.

Isso porque o segundo trimestre não apresentou crescimento em relação ao anterior. A estagnação dificulta o pagamento da dívida que o estado tem com a União, que hoje é de R$ 118 bilhões, e que teve o pagamento suspenso temporariamente graças à adesão ao Regime de Recuperação Fiscal, em 2017. A agência de classificação e risco Fitch Ratings atribuiu ao Rio a pior nota individual de crédito possível, por considerar que, sem a atual ajuda do governo federal, o estado não tem como pagar o que deve.

— Hoje, olhando os números, não há capacidade de pagamento até 2023 E permanecendo a situação, a dificuldade continuará por muitos anos — diz Paulo Fugulin, diretor de Finanças Públicas da Fitch Ratings Brasil.

Neste cenário, especialistas preveem que o estado pode demorar anos para equilibrar as contasPorém, mesmo que de forma lenta, o Rio já ensaia uma recuperação pelo setor que teve grande peso na crise: o de petróleo, que representa 25% da receita do estado direta e indiretamente. No segundo trimestre deste ano, o setor de extração mineral (óleo e gás) teve crescimento de 5,5%, e é esperada uma expansão após o sucesso nos últimos leilões do pré-sal. O Instituto Brasileiro de Petróleo (IBP) prevê que, apenas em 2019, o setor pague ao estado R$ 14 bilhões em participações pela exploração.

— Tivemos recorde de arrecadação nos leilões porque o Brasil ficou mais atrativo, e estamos começando a ver o resultado disso agora, com o aumento das perfurações e da produção. Isso continuará a crescer até 2022, quando esperamos US$ 27 bilhões em investimentos apenas para o Rio — afirma Antonio Guimarães, secretário-executivo de Exploração e Produção do IBP.

A expectativa de crescimento da receita com a indústria de petróleo vem junto com riscos. O primeiro é a proposta de que todos os estados e municípios do país recebam o valor arrecadado nos leilões de exploração do pré-sal e 15% de royalties do petróleo — o que reduziria a arrecadação do Rio como estado produtor. O segundo é que o governo estadual não faça as reformas necessárias para equilibrar as contas e gaste tudo o que receber com a folha de pagamento de inativos e pensionistas, que hoje custa R$ 15 bilhões por ano.

Sem esses problemas, a Secretaria estadual de Fazenda espera equalizar as contas em 2023, mas só terminaria de pagar a dívida em 2049. Assim, o estado começaria a sair da crise, mas ainda sendo dependente do petróleo.

Estado deve receber U$ 27 bilhões em investimentos


Plataforma da Petrobras: crescimento do setor de petróleo pode ajudar o Rio a sair da crise Foto: Pilar Olivares / Reuters

Depois da grande crise do setor de petróleo no país, com o escândalo da Petrobras e a queda no preço do barril no mercado internacional para abaixo de US$ 30, a retomada está ocorrendo aos poucos, com os vencedores dos grandes leilões de 2016 e 2017 entrando em fase de perfuração e produção.

O Instituto Brasileiro do Petróleo estima que, em 2022, o Brasil receba US$ 41 bilhões de investimentos, sendo 66% apenas para o Rio. Isso resultaria na criação de mais de 300 mil empregos no estado e em cerca de R$ 16 bilhões em pagamento de participações para o governo estadual, em 2023 — mais do que o dobro da receita no período pré-crise.

Essas perspectivas têm animado profissionais do setor que buscam realocação depois da crise, como o técnico em mecânica e inspetor de controle de qualidade, Wesley Ferreira, de 37 anos. Há três anos desempregado, ele não tem a intenção de desistir da carreira.

— Acho que o momento não é bom, mas está começando a melhorar. Gosto muito dessa área e já investi muito na minha qualificação, além de ter bastante experiência. Mando currículos todos os dias e estou confiante de que os empregos vão voltar — conta.

A retomada de investimentos está acontecendo devido a mudanças regulatórias nos últimos anos, como o fim da lei de conteúdo nacional, e a abertura à iniciativa privada. Somente a Petrobras prevê investir aproximadamente US$ 84 bilhões de 2019-2023, conforme divulgado em seu Plano de Negócios e Gestão.

Para Alessandra Ribeiro, analista de macroeconomia e política da consultoria Tendências, se o crescimento esperado para o setor se concretizar, a economia fluminense crescerá acima do PIB do país nos próximos anos. Mas há riscos no cenário internacional. Para o professor da UFRJ Edmar de Almeida, se o preço internacional do barril cair novamente a menos de US$ 50, os investimentos serão afetados.

Mas há riscos para a concretização desse cenário no mercado internacional.

— Os riscos da recuperação não são no Brasil. São externos, relacionados à dinâmica dos preços no mercado mundial. Se os preços caem abaixo dos US$ 50, por muito tempo os investimentos serão inevitavelmente afetados. Mas este não é o cenário atual. Eu acredito que o cenário mais provável é de um relativo equilíbrio no mercado com preços se sustentando no patamar atual nos próximos anos, o que significa que os investimentos continuarão a alavancar a recuperação do setor no Rio — afirma o professor da UFRJ Edmar de Almeida.

Setor imobiliário ainda fraco

Zona Oeste é onde ainda há grande número de imóveis não vendidos por construtoras Foto: Hudson Pontes

Enquanto o preço dos imóveis dá sinais de recuperação no país, no Rio ainda há queda. Segundo dados de agosto do FipeZap sobre imóveis residenciais, nos últimos 12 meses, os imóveis desvalorizaram 2,25%.

— No Rio, os preços podem começar a subir em termos nominais em 2021. Acima da inflação, não há perspectiva ainda — afirma Bruno Oliva, pesquisador da Fipe.

Novas construções ainda são raras, e muitos imóveis novos estão vazios. Isso porque ainda há moradias não vendidas pelas construtoras, principalmente na Zona Oeste da cidade. Ao mesmo tempo, o setor acredita que o pior já tenha passado.

— Estoques ainda são dificuldade. Se não estamos no fundo do poço, estamos quase lá. Isso nos anima a esperar tempos melhores. Até mesmo a queda de lançamentos e vendas do último trimestre trazem alento, posto que indicam a necessidade de reposição de novos empreendimentos — afirma Roberto Lira, consultor técnico do Sindicato da Indústria da Construção Civil no Estado do Rio de Janeiro (Sinduscon-Rio).

Já o mercado de aluguéis começa a se valorizar, com alta de 1,8% no acumulado do ano até maio. Isso porque, enquanto o mercado de compra e venda está parado, os proprietários estão alugando para não ficar no prejuízo. E, no segmento comercial, o setor de óleo e gás tem aumentado a demanda e diminuído o percentual de imóveis vazios, mas que continua muito alto, em 37%.

— Vemos uma recuperação, mas muito lenta e gradual. Mas voltar ao patamar pré-crise, não vai. Até porque não foi saudável tanta demanda sem oferta. Só resultou em um grande aumento de preços. Agora, espera-se que o mercado cresça de forma racional — diz Thierry Botto, diretor de Transações da Cushman & Wakefield no RJ.

Desemprego continua alto

Multidão enfrenta fila em busca de emprego na Rua Morais e Silva 94, no Maracanã, na Zona Norte do Rio Foto: Pablo Jacob

Por quatro anos consecutivos, o Rio registrou queda na atividade econômica. A perda acumulada foi de quase 7%, desde o início da recessão. No segundo trimestre deste ano, esse indicador, calculado pelo Banco Central (IBCR-RJ), cresceu 0,4% em comparação com o primeiro trimestre de 2019, sendo a terceira alta consecutiva.

Com a atividade econômica em nível ainda baixo, o índice de preços ao consumidor também registra desaceleração. Mesmo assim, a sensação para os moradores do Rio é a de que o custo de vida se mantém em patamares elevados, especialmente em relação a moradia, transporte, alimentação fora de casa.

Na avaliação do economista Marcel Balassiano, pesquisador da área de Economia Aplicada do FGV IBRE, embora os índices de preços continuem controlados, os indicadores de desemprego permanecem em alta, e aqueles relacionados à renda ainda não se recuperaram.

O Rio é o quinto estado com a maior taxa de trabalhadores desocupados. Segundo economistas, esta é a última variável tanto a entrar quanto ao sair da crise. Já nos primeiros três meses do ano, o número de pessoas desempregas era de 1,35 milhão, o maior patamar desde 2012, segundo dados do IBGE.

— O desemprego é a variável mais importante para a população. Não adianta ter inflação baixa com desemprego muito alto. Hoje, está em 15,1%, três pontos percentuais acima do desemprego nacional (que hoje é de 11,8%). Isso mostra o quão ruim estamos. As famílias estão sem renda para consumir — ressalta o economista.

Istvan Kasznar, professor da FGV EBAPE, avalia que o quadro recessivo do Rio de Janeiro, embora tenha começado depois, foi mais acentuado do que o da União. Ele pondera que é preciso repensar a matriz produtiva do estado para recompor a economia local de forma mais sustentável e integrada.

— Eu refiro ao setor educacional, por exemplo, com a repercussão do corte das bolsas de mestrado e doutorado. Uma pesquisa da Poli/UFRJ mostrou que 82% dos jovens formados não arrumam mais emprego. É preciso repensar a competitividade do estado que tem o ICMS mais alto do Brasil, o custo de energia elétrica mais elevado do país. Ou seja, a renda líquida final disponível cai muito. O Rio, como ex-capital, hoje tem a segunda maior quantidade de funcionários públicos do país — observa Istvan.

Para Alessandra Ribeiro, pesquisadora da área de Macroeconomia e Política da consultoria Tendências, o recrudescimento do desemprego, mesmo num cenário de melhora de perspectiva econômica, pode ser explicado pelo aumento no número de trabalhadores que voltam a tentar uma recolocação no mercado.

— Em um cenário melhor, as pessoas estão voltando ao mercado de trabalho. Então,por mais que o estado gere empregos, ainda não é num ritmo tão forte para absorver todo esse contingente que volta. Assim, a taxa de desemprego cai, mas gradualmente. O mesmo está acontecendo com o Brasil — afirma Alessandra.

Comércio do Rio sofreu com a crise, mas varejo já começa a ver melhora

Diversas lojas fecharam no Centro do Rio desde o início da crise Foto: Custodio Coimbra

No setor de serviços, a perda acumulada desde o pico da crise (em junho de 2014) é de 25,9%. Sobre as vendas no varejo, chega a 14,7% (em relação ao pico de outubro de 2014). E a perda da produção industrial desde o pico em março daquele ano é de 13,8%. Com prejuízos tão significativos, voltar aos níveis anteriores à recessão ainda será uma tarefa árdua.

— Não tem como ter uma retomada no curto prazo. Estamos assistindo a uma recuperação ainda muito, muito tímida. Então, crescimento é sempre comparado a um patamar muito baixo. O crescimento nacional é algo positivo, subindo 0,4%. É um número bom, mas que não representa a realidade, porque foi pontual em um trimestre. A construção cresceu depois de 20 trimestres de queda. Os investimentos durante a recessão caíram quase seis pontos percentuais, o menor nível dos últimos 50 anos — destaca Balassiano.

Um levantamento feito pelo Centro de Estudos do Clube de Diretores Lojistas do Rio de Janeiro (CDLRio) indica que, somente na capital fluminense, entre janeiro e dezembro de 2018, foram fechados dez mil estabelecimentos — um aumento de 15% em comparação com o mesmo período de 2017Somente no mês de dezembro do ano passado, 1.445 lojas encerraram as atividades, 33% mais do que no mesmo mês de 2017.

Na opinião dos lojistas, os fechamentos foram motivados por queda das vendas e recuo da atividade econômica, alta do desemprego, violência e aumento da economia informal, com o crescimento do número de camelôs nas ruas.

Apesar disso, empresas do setor varejista demostram otimismo com a retomada dos negócios no Rio. O grupo Carrefour, que chegou a considerar a possibilidade de deixar o estado por causa de episódios de roubo em sua central de abastecimento, na Baixada Fluminense, declarou que o Rio “é de extrema importância” para a empresa, que opera 23 unidades na região metropolitana.

Já o Grupo Cencosud Brasil, dono da rede Prezunic, informou que “confia na recuperação econômica do estado” e que observa “pequenos movimentos” de melhora na confiança do consumidor. O grupo afirma que os roubos de carga diminuíram e, embora muitas regiões ainda apresentem uma retração econômica forte, outras já demonstram uma pequena retomada.

A empresa lembra que a economia ainda está muito distante dos patamares de negócios alcançados até 2016, mas mantém investimentos no estado.

Turismo pode ajudar alavancar economia, se houver investimento

Arcos da Lapa: um dos principais pontos turísticos do Rio Foto: Gabriel de Paiva

Além de fortemente apoiada na exploração de petróleo, a economia fluminense sobrevive graças ao setor de serviços e à forte participação do turismo. No ano passado, o estado manteve a liderança de destinos mais procurados para lazer. Dos mais de 6,6 milhões de visitantes que chegaram ao Brasil, 1,3 milhão tiveram o Rio como porta de entrada, segundo dados do Ministério do Turismo.

O setor é uma das apostas para alavancar a retomada das atividades econômicas do estado. Para isso, uma das estratégias é aumentar a oferta de eventos para atrair os turistas. Até o fim de 2019, há uma previsão de 311 feiras, congressos e festivais, de acordo com o Rio Convention & Visitors Bureau. Em 2018, foram 288.

Especialistas concordam, no entanto, o fomento ao setor depende de investimentos estatal nas áreas de segurança pública e infraestrutura:

— Tivemos uma queda muito rápida no fluxo de caixa do estado por causa da receita do petróleo. O que gerou grave problema de segurança pública. Os serviços públicos já são muito ruins, e não há uma solução de curto prazo. Há um potencial de turismo que pode trazer recursos externos para Rio, mas isso depende de políticas públicas, como segurança e manutenção da cidade. Se compararmos com outras capitais do mundo, recebemos muito menos visitantes — pontua o economista José Ronaldo Souza Júnior, diretor de Estudos e Políticas Macroeconômicas do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

Para o consultor econômico Raul Velloso, o Rio tem um importante potencial turístico, mas depende de investimentos:

— Não é possível mudar a face turística do estado rapidamente. Isso envolve investir muito em infraestrutura, e o governo não tem dinheiro para investir. Também não adianta ser o lugar mais lindo do mundo, e as pessoas serem assaltadas nas ruas.

Fonte: Jornal Extra