Segundo FGV, pessimismo aumentou pelo terceiro mês consecutivo mesmo sem somar efeitos negativos da paralisação; para economistas, impacto de crise sobre setor será “forte” no trimestre

O humor do empresário de serviços já apresentava sinais de deterioração antes mesmo da paralisação dos caminhoneiros, que afetou o abastecimento do País. Em maio, a confiança do setor recuou pelo terceiro mês consecutivo, repetindo movimento que não ocorria desde o último trimestre de 2016.

Realizada pelo Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV/Ibre), a sondagem de serviços referente ao mês de maio não chegou a capturar os efeitos gerados pela greve do transporte rodoviário, iniciada no último dia 20.

Ainda assim, o indicador registrou retração de 2,4 pontos em maio – para 88,8 pontos em escala onde resultados menores que 100 indicam pessimismo – frente abril, no maior recuo do ano. “A confiança recuar três meses consecutivos não acontecia desde outubro/dezembro de 2016”, afirmou o consultor da FGV/Ibre, Silvio Sales.

De acordo com Sales, a confirmação do pessimismo em serviços foi fruto de “calibragem de expectativas” gerada por dois fatores: a frustração com a retomada da economia em ritmo aquém do esperado e a indefinição do cenário político no segundo semestre.

“A combinação desses dois fatores fez com que a confiança caísse. Agora, os fatos novos jogam mais elementos de incerteza”, avaliou o consultor, adicionando que a greve “terá um efeito potencial grande nos resultados dos próximos meses.”

Economista-chefe da Federação do Comércio de Bens e Serviços do Rio Grande do Sul (Fecomércio-RS), Patrícia Palermo também prevê “um efeito muito forte” sobre os números do setor por conta da paralisação – que está afetando o abastecimento de combustíveis de maneira significativa. “Pensando na hotelaria, quantas pessoas não estão cancelando viagens de final de semana em plena véspera do Dia dos Namorados?”, questionou.

“Na educação, inúmeras universidades e escolas estão cancelando aulas. Como elas serão recuperadas?”, prosseguiu Palermo. “Já na saúde, diversos hospitais estão cancelando cirurgias eletivas e consultas. Além disso, se o cliente está poupando gasolina, uma série de outros serviços – como as lavanderias – começam a parar.”

Efeito cascata
Dessa forma, os economistas consultados pelo DCI não descartam possibilidade do segundo trimestre ficar atrás do primeiro em termos de serviços prestados. “Já há sondagens de dois terços do segundo trimestre, e os resultados não são positivos, com uma migração de otimismo para cautela”, afirmou Sales.

Antes da queda de 2,4 pontos em maio, a confiança em serviços havia recuado 0,2 pontos em abril. Já em março, o indicador caíra 1,7 pontos, interrompendo sequência positiva do primeiro bimestre.

Os resultados da sondagem do setor devem refletir na demanda por serviços prestados medida pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) no âmbito da Pesquisa Mensal de Serviços (PMS).

Da FGV/Ibre, Sales lembrou que “diferentemente da indústria [que registrou alta de 3,1% na produção durante o primeiro trimestre] e do comércio [alta de 3,8% no volume de vendas], o setor de serviços “não registrou taxas interanuais positivas” entre janeiro e março.

No primeiro trimestre, as prestadoras de serviços acompanhadas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística indicaram queda de 1,5% na demanda ante em relação ao mesmo período de 2017.

O movimento foi disseminado tanto entre os serviços prestados às famílias (queda de 2,4% no volume prestado em três meses) quanto nos profissionais e administrativos (-2,6%), sendo ainda mais forte no setor de informação e comunicação (-3,7%)

No caso das prestadoras dos serviços de telecomunicações, a entidade que representa o setor afirmou que está “com seus estoques de combustível praticamente zerados e que, se não forem tomadas medidas emergenciais, os serviços de manutenção e reparo não poderão ser realizados”, conforme nota publicada na noite de domingo (27).

Já as empresas de transportes e serviços auxiliares, por sua vez, formam o único setor que registrou alta (de 1,2%) interanual no volume de serviços prestados durante o primeiro trimestre, acompanhada por avanço de 4,9% no faturamento no mesmo período. Se considerado apenas o transporte terrestre, o salto no volume de serviços foi de 1,6%, enquanto a receita evoluiu 5,7% no trimestre frente há um ano.
Fonte: DCI